segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Drogas, um ‘holocausto social’

Por Miguel Dias Pinheiro

Hoje, todos nós como partícipes de uma sociedade chegamos a uma conclusão: “Não vamos conseguir vencer a violência e a criminalidade enquanto a droga estiver entrando nas nossas famílias”. Como maior instituição da humanidade, a família se encontra diante de uma encruzilhada: vencer ou morrer.

Na corrida contra o tempo, chegamos a desanimar: a droga tende a mostrar-se invencível. De acordo com a doutora em Psicologia pela Université de Paris, Maria de Fátima Olivier Sudbrack, terapeuta de famílias e de adolescentes, o estereótipo do antigo binômio “pobreza igual violência” foi substituído no imaginário social pelo estereótipo “drogas igual violência”. Realmente, droga, violência e criminalidade estão cada vez mais próximas, independentemente da classe social.

O noticiário do dia a dia fica repleto de informações dando conta de que pessoas perdem suas vidas em função dessa “bugiganga destruidora” que o ministro do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, quer legalizar atendendo pedido de Fernando Henrique Cardoso, um sociólogo ex-presidente do Brasil que acha que um avião com 600 passageiros poderá cruzar o mundo comandado por um piloto fumando maconha. Autoridades insistem em não entender que estamos vivendo hoje um “holocausto social” com a sensação de que o mundo está girando ao contrário. O amor fugindo do lar, das famílias, da dignidade no trabalho, no emprego,... Tudo se perdendo por nada e de forma desvairada.

Denise Marcon, uma observadora do cotidiano, traça-nos um quadro desolador: “o uso de drogas tem se tornado crescente em toda a sociedade, independente do sexo, idade, raça ou classe social. Quando falamos sobre este assunto, é impossível deixar de associar a ele a questão da violência. As drogas entraram na sociedade de uma maneira devastadora, fazendo vítimas a todo o momento. Famílias destruídas pela violência urbana que tem como principal causa esta dependência doentia. O vício se torna tão vital ao dependente químico que o mesmo não encontra outra maneira de sustentá-lo, senão cometendo crimes, matando e agredindo a população. Muitas discussões se fazem acerca de uma solução para o problema, questões como legalização das drogas, melhoras nas políticas de segurança pública e até mesmo punições mais severas para esta violência que deixa marcas eternas na mente e no corpo de quem a sofre e de quem já sofreu”.

Enquanto a droga estiver entrando nas famílias, a luta de todos será inglória! Ou se enfrenta de frente, ou nada feito. Acho que não é legalizando a droga que vamos resolver ou minimizar a situação. A insegurança generalizou-se e a droga chegou e se instalou sem encontrar resistência. Expande-se incontrolavelmente, multiplica-se a perder de vista.

As pesquisas e os estudos informam que no “mercado” tem droga para todos os gostos e poder aquisitivo. Da mais leve à mais pesada. Cocaína, que em um passado não muito distante era a “muamba” do nobre, dos palácios, hoje se encontra na mão do plebeu, do chulo, do reles e na próxima feira popular, vendida e consumida na depravação e socavões dos perímetros.

Para a polícia, para qualquer sistema de segurança ou plano ostensivo de força é quase impossível conter o contingente de drogados e, por conseqüência, de criminosos ou dos que vivem e sobrevivem em decorrência do crime.

Estudos provam que o problema das drogas não escapa a nenhuma sociedade, por mais organizada que seja. A conclusão está em relatório produzido pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crimes – UNODC. Para se ter uma ideia, o comércio da droga movimenta mais de U$ 60 bilhões de dólares por ano, sendo, pois, o principal responsável pelo aumento da violência. O relatório, inclusive, é contra a legalização e o problema é tratado como um “erro histórico”, já que o consumo representa riscos à saúde humana e poderá se transformar em uma epidemia.

Para o filósofo e professor de Sociologia da Faculdade de Tecnologia de Guaratinguetá (Fatec), João Geraldo dos Santos Júnior, a sociedade hoje tem características bem diferentes quando comparadas às outras décadas. “Mulheres trabalhando fora, portanto crianças sendo criadas fora do lar, muitas vezes em creches, em outras instituições passam o dia lá com a babá. Isso criou certa distância entre pais e filhos, natural na sociedade moderna. O que se percebe, devido ao uso de drogas, é a desestabilização dos lares. É a falta de respeito; a falta de união entre pais e filhos; o filho não conhece o pai, o pai não conhece o filho”. O professor acredita que, muitas vezes, essa situação acaba desestruturando as famílias.

“Enquanto não percebermos que o conceito de família mudou, nós não iremos chegar a lugar algum! Assim como o usuário de droga só consegue se recuperar quando reconhece a sua dependência, a sociedade só conseguirá se recuperar quando perceber que ela, a começar das famílias, está doente e precisa de tratamento. Não adianta presidente, governadores, deputados, senadores, prefeitos e vereadores criarem mil projetos, se a sociedade, sobretudo as famílias, não abraçar os tais projetos. Esse problema não é dele, nem dela, é NOSSO! Se não entendemos assim, lamento muito!” (jornalista Flávio Azevedo)