quinta-feira, 22 de março de 2018

“Bebemos água barrenta, com gosto de lama e suja”, diz teresinense


Hoje, 22 de março, é comemorado o Dia Mundial da Água. E, neste mês, a Organização das Nações Unidas (ONU) e o Banco Mundial divulgaram um relatório revelando que 40% das pessoas, em todo o mundo, estão sendo afetadas pela escassez de água e cerca de 80% das águas residuais são descarregadas sem tratamento no ambiente.
Mais de 2 bilhões de pessoas são obrigadas a beber água insegura e mais de 4,5 bilhões não possuem serviços de saneamento gerenciados de forma segura. O relatório mostra que mulheres e meninas sofrem desproporcionalmente quando falta água e saneamento, afetando a saúde e, muitas vezes, restringindo as oportunidades de trabalho e educação.
E este cenário nem está tão longe. No meio da avenida, um vazamento se arrasta por cinco anos. Há poucos metros, os moradores de uma comunidade precisam carregar baldes para abastecer suas residências e realizar as atividades básicas. Esta é a realidade da população que vive no Parque Vitória, bairro Angelim, zona Sul de Teresina.
Lá, os próprios moradores compraram canos e fizeram ligações clandestinas para conseguir ter acesso à água e, com o auxílio de uma bomba, o líquido é levado para as áreas mais altas da comunidade. Contudo, nem isso garante que toda a população seja beneficiada, obrigando que eles façam várias viagens até pontos mais baixos e encham baldes e tambores.
“Eu me sinto humilhada por morar tão perto de um lugar com água e não poder usar, não ter como dar banho na minha filha e nos meus netos. Beber água barrenta, com gosto de lama e suja. Bebemos do jeito que conseguimos pegar, porque não temos filtro nem gás suficiente para ferver. Nós fazemos tanto esforço e só queremos um pouco de dignidade”, pontua a dona de casa Ana Paula Monteiro da Silva.
Para encher os depósitos, ela vai até a residência de sua vizinha, que mora em um ponto mais baixo e a água consegue chegar à torneira. Lá, ela e seu esposo enchem um balde e utilizam o líquido no preparo da comida e atividades domésticas.
“Todo dia eu faço esse percurso. Quando tem água suficiente para encher, a gente economiza para durar três dias; mas se acaba antes, a gente fica sem ou vai pegando de garrafa, porque o corpo não aguenta tanto esforço. É triste vivem em um lugar que tem água e a gente não ter acesso. Até as pessoas que puxaram o cano não conseguem ter água, porque a pressão não é suficiente”, disse.
Ajuda
Quando a água não é suficiente para todos, a dona de casa leva os filhos para tomar banho na casa de sua filha mais velha ou de vizinhos. Na oportunidade, a família aproveita para fazer suas necessidades básicas e cuidados com a higiene, como lavar os cabelos e escovar os dentes.
“Em casa, meus filhos tomam banho rápido, só para não ficarem sujos, mas como a água é pouca, não dá para fazer tudo aqui. Roupa eu levo para a casa da minha filha. Eu tenho um banheiro com vaso, mas não tem descarga. Quando tem água, a gente joga dentro do vaso; se não tem, pede para os vizinhos. A gente tenta manter o mínimo de higiene possível, mas sem água é difícil”, comenta.
Já o pedreiro Elias Gomes mostra as duas garrafas plásticas que utiliza para armazenar água para beber. Vazias, ele conta que se não fossem as filhas e os vizinhos, passaria sede. O banho também é tomado na casa de parentes, assim como a lavagem de suas roupas. A casa simples não é limpa com frequência e o homem conta com a ajuda de outros moradores para armazenar um pouco de água em sua casa.
“Às vezes, um sobrinho vem deixar água para mim, ou eu vou para a casa da minha filha, da minha ex-sogra. Nem balde para guardar água eu tenho mais, porque nem água tem. É muito triste viver nessas condições. Quando eu vim morar aqui, há cinco anos, a água passava em frente à minha casa, dava para todo mundo. Hoje, a gente fica mendigando água para beber”, fala emocionado.
Falta d’água causa doenças
Sem água, a higiene dos moradores fica comprometida, colocando em risco a saúde da população, sobretudo das crianças, que andam descalças. Segundo Ana Paula, é comum encontrar crianças com diarreia e doenças de pele, resultados da falta de água e saneamento para a comunidade.
“Apesar de ter banheiro, não tem água para jogar no vaso, mas eu tento deixar sempre limpo porque tenho uma filha de 8 anos e tenho medo dela pegar alguma doença, e a gente bebe água suja, da cor de telha, com gosto de barro”, conta.
Mas não é o consumo de água imprópria que tem deixado a população doente. Como diariamente precisam subir e descer as ladeiras com baldes nos braços, muitos moradores relatam dores nas costas, além de constantes quedas, devido às condições das ruas.
“Como as ruas estão esburacadas e cheias de pedras, é difícil conseguir se equilibrar com um balde cheio de água nos braços. Outro dia, eu escorreguei no barranco e machuquei meus joelhos, ficou sangrando e agora eu mal consigo andar”, disse a aposentada Maria Silva, apontando para as cicatrizes que ficaram em sua pele.
Já a dona de casa Ana Paula conta que há dias que não consegue dormir à noite, devido às fortes dores que sente nas costas e na cabeça.

Fonte: Portal O Dia